O novo sonho do pop global? Cair nas graças do Brasil
Entre K-pop, Carnaval e cultura digital, artistas internacionais descobrem o peso real do público brasileiro.
Como disse
Bad Bunny: “agora, todos querem ser latinos!”.
Pela
primeira vez, sinto que o Brasil realmente ocupa um lugar de protagonismo no
cenário cultural global. Antes, nossa presença aparecia nas entrelinhas,
estereotipada, romantizada ou simplesmente apropriada. Agora, o Brasil Core
está em alta, sendo discutido, defendido e influenciando música, arte, moda e
até política.
Quero dizer:
a Janja ganhou um presente do Jin, do BTS, na Coreia do Sul. E não foi em um
encontro aleatório de celebridades. Esse momento aconteceu durante uma viagem
oficial voltada a acordos políticos e parcerias culturais.
Por isso eu
entendo quando surge o argumento de que “os famosos só estão se aproveitando do
hype do Brasil para se promover”. Porque, sim, isso acontece e sempre vai
acontecer.
É muito
legal ouvir do seu artista favorito que ele ama o Brasil e conhece várias
coisas da nossa cultura. Em alguns casos, pode até ser verdade. Mas a realidade
é que também somos um dos maiores e mais promissores mercados de marketing e
influência do mundo.
Segundo a
Comscore, o Brasil está entre os quatro maiores mercados digitais globais,
liderando a América Latina. Ou seja: é ingenuidade pensar que conteúdos, shows,
eventos, produtos e “mimos” direcionados ao Brasil ou à América Latina
acontecem apenas por amor aos fãs.
Porém,
demonizar esse “amor interessado” também não faz muito sentido.
Aqui vale
uma virada de chave.
O que antes
era apenas uma estratégia fácil para viralizar agora virou obrigação dentro
de qualquer plano de marketing global. O Brasil e a cultura latina estão no
mainstream, e considerar nossas influências culturais deixou de ser um bônus
para virar parte da base estratégica de qualquer projeto que queira sucesso
internacional.
Esse é
exatamente o tipo de movimento que pode transformar a nossa famosa síndrome
de vira-lata em algo muito mais poderoso: orgulho e consciência de
influência.
E,
honestamente, já estamos vendo esse movimento ganhar forma.
Um exemplo
claro são as críticas cada vez mais fortes às taxas abusivas e à chamada “máfia
dos ingressos”. Antes, o público reclamava, fazia barulho no Twitter e tudo
acabava virando apenas um burburinho pré-show. Os artistas seguiam como se nada
tivesse acontecido, alguns inclusive trazendo versões reduzidas da estrutura
original das turnês ou até cancelando apresentações por motivos, às vezes,
bastante questionáveis.
Hoje, a
história começa a mudar. O tema já chegou ao parlamento, como no caso do
deputado Guilherme Cortez (PSOL), que acionou o Procon para investigar
possíveis irregularidades na venda de ingressos.
Esse tipo de
reação mostra que o público brasileiro deixou de ser apenas barulhento nas
redes e passou a exercer pressão real.
Claro que
ainda é divertido ver idols fazendo challenges de funks proibidões sem ter a
menor ideia do que a letra está dizendo. Mas é ainda mais interessante quando
eles interagem com fãs brasileiros em português, contam que foram pesquisar o
significado e reagem com um emoji de vergonha ou aquela carinha safada.
O nível
da troca cultural também mudou.
Já não basta
apenas usar um sample de funk ou bossa nova e pedir para um produtor coreano
fazer a mixagem, como aconteceu no remix de Fact Check, do NCT 127, ou
em Do What I Want, do MONSTA X.
A gente quer
colaboração de verdade.
Quer ver a
Anitta com o TXT performando Back for More ao vivo no palco do VMA,
rebolando no MV oficial gravado na Coreia e comendo farofa com os meninos nos
bastidores.
Quer ver o
NMIXX pegando 30 horas de voo para cantar com a Pabllo Vittar em cima de um
trio elétrico no Carnaval, para dois milhões de pessoas. E não de forma
aleatória — como aconteceu quando Claudia Leitte dividiu o palco com PSY em
2013 —, mas com música inédita, MV, coreografia, dance practice e toda a
estrutura que o K-pop sabe fazer tão bem.
Falando em
Carnaval, precisamos enaltecer o nosso maior soft power. Porque
fevereiro de 2026 foi simplesmente histórico.
O Carnaval
deste ano registrou o maior fluxo internacional já visto no Brasil. De acordo
com a Embratur, cerca de 300 mil turistas estrangeiros desembarcaram no
país durante o período da festa, um crescimento de 17% em relação a 2025.
Quem esteve
nos blocos, nos desfiles ou em qualquer grande cidade turística conseguiu
perceber essa verdadeira invasão gringa. Eu mesma vivi o Carnaval deste ano
como se tivesse 20 anos de novo e fiquei surpresa com a atmosfera.
Normalmente
existe aquele estereótipo do turista estrangeiro: ou completamente perdido e
sem noção, ou andando meio desconfiado, com medo de tudo e com certo nojinho de
tudo.
Mas este ano
foi diferente.
Eu vi gente
realmente se jogando na festa. Curtindo de verdade. Se misturando. Se molhando
na chuva. As meninas do NMIXX, por exemplo, se jogaram no meio da chuva no
Ibirapuera. Tipo… quem diria?
E acho que
isso serve menos como uma lição para o mundo e mais como um espelho para alguns
brasileiros que ainda carregam um certo ranço de ser brasileiro.
Sabe aquele
tipo de criador de conteúdo que faz vídeo de viagem apenas para comparar o
quanto o país X, Y ou Z é melhor que o Brasil?
Antes mesmo
do Carnaval, eu já tinha começado a perceber uma inversão interessante de
percepções culturais ao acompanhar as reações de mulheres coreanas ao reality
show brasileiro Meu Namorado Coreano.
Alguns
comentários diziam coisas como:
“Como
assim escolher um coreano entre homens brasileiros? Só experimente como se
fosse um petisco e vá embora.”
“Parece
um programa feito para destruir as fantasias criadas pela mídia.”
“Orem
pelas mulheres brasileiras.”
“Me deem
os brasileiros, vocês podem ficar com todos os hannams.”
Agora, um
aviso importante: não estou defendendo homens brasileiros. Considerando
o quão difícil ainda é sobreviver sendo mulher neste país, defender qualquer
categoria masculina cegamente seria, no mínimo, ingenuidade.
Mas é
interessante observar como essas reações revelam algo maior.
Não é apenas
sobre estrangeiras dizendo que seus países também têm problemas. É sobre
percebermos o quanto precisamos valorizar mais quem somos, enquanto
brasileiras, e o estilo de vida que construímos aqui.
A leitura
não precisa ser literal, do tipo “homens coreanos também não prestam”. A
mensagem nas entrelinhas pode ser outra: “mulheres brasileiras, valorizem a
liberdade que vocês têm, porque ela não existe da mesma forma em todos os
lugares.”
Talvez
estejamos entrando na era da busca pelo “sonho brasileiro” ou por um
verdadeiro Brazilian way of life.
Somos
imperfeitos. Muito. Mas dentro dessas imperfeições existe alegria, acolhimento
e afeto.
Somos um
povo que ama com facilidade, que celebra artistas que nos reconhecem e que
entrega energia genuína para quem valoriza essa troca cultural. Sempre vai
existir alguém no Brasil disposto a acompanhar sua arte, cantar junto e te
incentivar.
E agora que
esse tipo de público finalmente entrou no mainstream global, talvez o novo
sonho de todo artista seja exatamente esse: ser amado pelo Brasil.
Flah
Pacheco
Comentários
Postar um comentário