Era uma vez um Idol CEO...

 


A gente precisa combinar que direitos trabalhistas e carteira de trabalho não são exatamente o forte da Coreia do Sul, certo?

Toda geração do K-pop tem pelo menos um grande escândalo envolvendo uma guerra gigante entre idol e empresa. São conflitos que passam por escalas de trabalho absurdas, pressão estética, violência física e psicológica, contratos abusivos, repasse incorreto (ou até ausência total) de pagamento… e por aí vai.

É de conhecimento geral que se tornar idol não é fácil e, principalmente, não envolve apenas boas habilidades de canto e dança. Se talento fosse o foco, Ejae — com Globo de Ouro, Grammy e, se Deus quiser, um Oscar na conta — não teria sido chutada da SM anos atrás. Ser idol exige uma abdicação extremamente drástica da vida comum, algo que muitos ainda romantizam como o famigerado “preço da fama”. Essa ideia, inclusive, é frequentemente usada por fãs mais desequilibradas como justificativa para comportamentos invasivos e até criminosos.

A manutenção de uma imagem “limpa” e socialmente exemplar não deveria servir como desculpa para uma série de atitudes totalmente questionáveis por parte das empresas. E eu nem estou falando de coisas “pequenas”, como proibir namoro, por exemplo. Perto de imposições como dietas restritivas, cirurgias plásticas obrigatórias e figurinos curtos e desconfortáveis, essa regra acaba sendo vista como praxe, uma liberdade mínima que, para um jovem de 14 ou 15 anos, parece totalmente descartável num primeiro momento.

Os grandes embates surgem quando os idols finalmente criam coragem e se revoltam.

A primeira geração viveu a separação trágica do TVXQ, quando três dos cinco membros entraram com uma ação contra a SM, alegando contratos abusivos, carga horária excessiva e divisão injusta dos lucros. Dessa treta, inclusive, surgiu a chamada Lei JYJ, criada para tentar impedir emissoras de TV de barrar artistas sem motivo legítimo, já que, na época, a SM exerceu uma pressão absurda para impedir a divulgação e a participação dos ex-membros em programas de televisão. O próprio Jaejoong só voltou a aparecer na mídia agora, depois de anos afastado.

Anos depois, a história se repete. Mesma empresa, mesmos problemas, mas agora com um grupo da terceira geração. Três integrantes do EXO — a unit EXO-CBX (Chen, Baekhyun e Xiumin) — colocaram a SM na justiça por contratos abusivos, falta de transparência nos pagamentos e dificuldades no processo de rescisão. Os fãs ficaram revoltadíssimos quando a empresa excluiu os meninos do último comeback do grupo, que marcaria a reunião completa após o alistamento obrigatório. Ou seja: a chance de ver o EXO inteiro foi de base. Sem contar que o CBX reúne alguns dos principais vocais do grupo, vozes marcantes que, juntas, formam um dos coros mais bonitos e tecnicamente mais completos do K-pop.

É importante deixar claro que não estou aqui para demonizar a SM, longe de mim. Até porque é quase impossível encontrar uma empresa sul-coreana que não tenha algum escândalo envolvendo brigas judiciais com idols. Se fosse expor uma, teria que expor todas hahaha. Brincadeiras à parte, eu precisaria escrever uma trilogia só para listar todos os casos, e definitivamente não é esse o objetivo do texto de hoje.

A reflexão que eu quero propor é outra: e quando os idols se tornam CEOs?

Existe aquela máxima de que “o sonho do oprimido é se tornar o opressor”, mas também existe a busca legítima por liberdade artística. Muitas vezes, o que esses artistas querem é apenas um espaço seguro para criar, trabalhar em paz e ter controle sobre a própria carreira. Para alguns, a saída acaba sendo abrir a própria empresa, não só para si administrar, mas também para dar espaço a outros jovens que compartilham do mesmo sonho. O Baekhyun, por exemplo, fundou sua empresa para gerenciar as atividades do CBX, e é ela que responde hoje pelos processos contra a SM.

Aqui, vale fazer um recorte geracional. Temos idols mais velhos à frente de grandes empresas, como é o caso da JYP, que definitivamente não é sinônimo absoluto de bondade e transparência. Ainda assim, a relação do J.Y. Park com seus artistas é visivelmente diferente da maioria das outras BIG 4. Existe uma liberdade criativa, e até comportamental, maior entre grupos como Stray Kids e Twice, conquistada ao longo dos anos pelos próprios artistas, além de uma adaptação da empresa a essa nova dinâmica entre agência e idol. Na minha opinião, a JYP vem aprendendo com os erros das coleguinhas nos últimos anos.

Sem falar na valorização da imagem do idol quando o público descobre seu envolvimento direto no processo criativo das músicas. Isso aumenta muito o prestígio dos artistas e acaba refletindo positivamente também na imagem da empresa.

Falando em JYP e em CEOs mais jovens, talvez o maior case de sucesso seja Jackson Wang e a Team Wang. Jackson é aquele ex-BBB que deu certo — a Grazzi Massafera do K-pop. No início do GOT7, ele tinha uma participação relativamente discreta e ainda enfrentava o desafio de ser estrangeiro, algo que impacta bastante a popularidade dentro da Coreia do Sul. Mesmo assim, construiu uma carreira gigantesca no entretenimento global, não só furando, mas explodindo a bolha que tentava limitar seu talento.

Hoje, a Team Wang é uma empresa multifacetada: atua como gravadora, produtora e agência de gerenciamento de artistas, além da marca de moda streetwear de luxo Team Wang Design, onde Jackson é designer e diretor criativo.

Um dos aspectos mais interessantes dessas empresas comandadas por idols mais jovens é o cuidado e o afeto com artistas da nova geração. Na quinta geração do K-pop, vemos muitos “filhos” dessas empresas, que se sentem acolhidos por mentores que reconhecem e valorizam seu potencial. Dois exemplos marcantes são o ZICO, com a KOZ (hoje subsidiária da HYBE), responsável pelo BOYNEXTDOOR, e o Jay Park, com a MORE VISION, que lançou recentemente o grupo LNGSHOT.

ZICO, líder do Block B (que na minha cabeça e no meu coração segue vivíssimo), é uma referência clara para o BOYNEXTDOOR. O carinho dos meninos por ele é evidente, assim como o orgulho do CEO, que sempre que pode fala sobre o grupo e destaca sua qualidade musical. A influência estética e sonora do mentor é nítida e faz parte da identidade do grupo, que cresce cada vez mais.

O LNGSHOT, por sua vez, parece literalmente um grupo de filhos legítimos do Jay Park. Recém-debutados, eles já protagonizaram uma das aparições públicas mais interessantes da cena recente, com uma performance icônica no MMA de 2025. Jay Park fez uma collab com o grupo em um palco recheado de artistas relevantes, o que não só deu uma visibilidade absurda ao pré-debut, como também posicionou subjetivamente o LNGSHOT no mesmo nível dos nomes consagrados presentes ali.

E, sendo bem honesta, fazia tempo que eu não via um grupo tão bom logo de cara. Escolhidos a dedo pelo Jay Park, os meninos vêm sendo protegidos e guiados de perto. E, sinceramente, com um debut forte, popularidade crescente e um repertório inicial sem uma música ruim sequer, tem mais é que cuidar mesmo.

No geral, é muito interessante observar essa tendência de artistas do K-pop buscando alternativas para produzir sua arte de forma mais segura, saudável e justa. A falsa sensação de apoio e estabilidade oferecida por empresas gigantes pode até ser confortável, mas também carrega um risco enorme: hoje em dia, o que mais existe é artista talentoso preso nos porões dessas companhias, sem investimento, sem oportunidade e sem reconhecimento.


Flah Pacheco

Comentários

  1. Adorei o texto e queria mais. Se puder, e quiser, escreva mais sobre as empresas da Coreia do Sul

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