Quando que arte vira expressão real do artista?
K-pop é um processo.
Essa
indústria é uma máquina que opera por meio de diversos mecanismos,
majoritariamente abastecidos por uma sociedade conservadora.
Embora
vários grupos atualmente trabalhem na produção das próprias músicas, isso ainda
é uma exceção no mercado. Não por falta de capacidade, mas porque o K-pop é,
basicamente, um enxoval composto não apenas por música, mas também por dança,
audiovisual, conceito, público-alvo e identidade, elementos que, muitas vezes,
são ditados pela moral da sociedade coreana.
Trata-se de
um produto feito para vender e, portanto, projetado para agradar ao
público-alvo.
“Mas que
público exatamente é esse?” Talvez o mais exigente de todos.
Desde que o
mundo é mundo, o K-pop é dividido em duas vertentes: girl groups e boy
groups. E essa não é apenas uma divisão binária de gênero, mas uma
verdadeira cartilha de valores. A partir dela, definem-se visual, estilo de
dança, timbre vocal, ritmo e melodias específicas para cada um desses grupos.
Seguindo à
risca o jargão “meninos usam azul e meninas usam rosa”, toda a carreira de um
grupo de jovens — às vezes jovens demais — é definida e executada por poucos
empresários, quase sempre de forma incontestável. Claro que aqui há muito pano
para manga, e é possível fazer inúmeros paralelos que vão desde acordos
publicitários até o respeito à vida privada do artista. Mas, como diz o título,
hoje eu gostaria de falar sobre expressão.
Segundo
Ricciotto Canudo, a música é uma das sete artes clássicas. Na verdade, é a
primeira arte, ou seja, a expressão artística mais fundamental de todas.
Na minha
opinião, em algum momento dessa produção conservadora em massa, surge nesses
jovens um desejo legítimo de expressão, algo que vai além da simples vontade do
seu eu de 15 anos em ser apenas famoso.
Alguns têm a
sorte de se satisfazerem com os conceitos aos quais já pertencem. Ou seja,
alguns meninos se identificam perfeitamente apenas com o azul. Mas e quando
essa caixa não é suficiente? E quando ela apenas oprime e aprisiona?
Repressão e
apagamento, infelizmente, são estratégias muito comuns e amplamente utilizadas
nessa indústria. Porém, existe uma movimentação ativa e crescente, iniciada em
2025, que tem tudo para revolucionar a cena em 2026.
Na verdade,
acredito que exista um conjunto de acontecimentos neste momento histórico da
humanidade que, de certa forma, preparou o terreno para que o questionamento
aos padrões sociais se intensificasse. E eu estou amando fazer parte disso,
principalmente como fã de K-pop que já presenciou muita bizarrice nesse meio.
Em 2025,
tivemos algumas discussões que cresceram enormemente, como o debate sobre
figurinos e a moda mais andrógina adotada por alguns idols masculinos.
Félix, do Stray Kids, e Yeonjun, do TXT, estiveram no centro dessas conversas
sobre homens usando saias e roupas consideradas femininas. Não à toa, eles
também se tornaram um prato cheio para grandes marcas de luxo, não apenas
movimentando muita grana, como também influenciando diretamente o mercado desse
setor.
No entanto,
gostaria que dois momentos ficassem registrados na história como marcos do
início dessa caminhada pela real liberdade de expressão dentro do K-pop.
O
primeiro: o debut do XLOV.
Formado por
Wumuti, Rui, Haru e Hyun, o grupo XLOV surgiu na cena com uma das propostas
mais inovadoras e corajosas dos últimos tempos: criar um grupo com um conceito
agênero.
Do visual ao
estilo de dança, das unhas postiças ao twerk, o XLOV utiliza diversos
elementos para compor sua identidade e transmitir sua mensagem. O líder Wumuti
já declarou, em várias entrevistas, que não se trata apenas de se entender como
pessoa e escolher como expressar sua arte, mas de conquistar espaço dentro da
indústria — algo extremamente difícil, sobretudo quando se deseja questionar e
romper padrões.
Eles
acumulam muita experiência em realities de sobrevivência, como o Boys
Planet (Wumuti, Rui e Haru foram ex-participantes do programa). Convenhamos
que, mais do que avaliar habilidades, esse tipo de formato busca padronizar
visual e comportamento, formando grupos que se encaixem no que os fãs, e, por
consequência, a sociedade, esperam de um idol, já que o voto popular é
um dos principais fatores determinantes para o debut.
Quando um
grupo como o XLOV surge e alcança o sucesso que vem conquistando, surpreendendo
grande parte da indústria, uma nova luz se acende nesse mercado. Obviamente,
existe um conjunto de fatores que favoreceu esse cenário. Um deles é o
crescente interesse sul-coreano pelo chamado Pink Money, perceptível na
popularização de produções queer, como BLs, GLs, programas de
relacionamento e encontros LGBTQIA+.
Muitos idols
acompanham esse movimento e passaram a questionar repressões que antes eram
naturalizadas. No caso do XLOV, o debate gira em torno das diferenças entre
expressão de gênero, identidade de gênero e sexualidade, já que o conceito
visual do grupo se insere no recorte da expressão, sem que seus membros tenham
falado abertamente sobre identidade ou orientação. Ainda assim, outros artistas
vêm levantando essa bandeira, falando com orgulho sobre sua vida pessoal e,
mais do que inspirando, acolhendo milhares de fãs da comunidade LGBT+.
Um dos
exemplos mais marcantes — e, na minha opinião, históricos — de 2025 foi Cocona,
do XG, que se assumiu como uma pessoa transmasculina não binária. Nesse caso,
há uma soma de acontecimentos tão potente que torna tudo ainda mais
significativo para a indústria.
A
coragem.
É impossível
imaginar o nível de coragem necessário para dar esse passo publicamente. Se já
é difícil para uma celebridade comum, para um idol é algo quase
impensável. Eles são treinados para que seja impensável.
O grupo.
Não se
enganem com a imagem romantizada de que todo grupo de K-pop é uma grande
família. Não é sempre assim. Existe muita coisa em jogo, e é natural que os
interesses coletivos se sobreponham aos individuais. Em uma questão tão
delicada e capaz de gerar impactos profundos na carreira de todos, o apoio que
Cocona recebeu foi, sim, extraordinário. O grupo abraçou a causa de forma tão
séria e comprometida que até sua identidade visual foi ajustada.
A
identidade.
A base
conceitual do XG foi reformulada. O nome, que antes significava Xtraordinary
Girls, passou a ser Xtraordinary Genes, reforçando a ideia de que
criatividade e expressão ultrapassam rótulos e padrões. Trata-se de um ato
claro de inclusão, não apenas enquanto estratégia de marketing, mas como
reconhecimento da identidade, coragem e orgulho de Cocona. Uma mensagem que
transcende o indivíduo e acolhe toda uma comunidade.
O chefe.
O apoio
público de Simon, CEO da empresa, também merece destaque. Embora para muitos
isso represente o mínimo, dentro da indústria do K-pop trata-se de algo
extremamente raro. Um CEO apoiar abertamente um artista queer é um gesto
de peso simbólico imenso.
De modo
geral, acontecimentos como esses, dentro de uma indústria tão conservadora,
aquecem o coração dos fãs. Especialmente fora da Coreia do Sul, uma parcela
significativa do público do K-pop pertence à comunidade LGBT+, gerando
engajamento e movimentando bilhões. Nada mais justo que essas pessoas sejam
representadas e que seus idols tão amados sejam respeitados, tendo
liberdade para se expressar, dialogar com seus iguais e promover acolhimento e
inclusão.
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