Vamos falar de Memoir of Rati?



Antes tarde do que nunca! o importante é pensar positivo, sempre! Hahaha.

Afinal, é o meu BL favorito do ano.

“Como assim eu ainda não consegui escrever um texto decente sobre ele?”, você deve estar se perguntando. Bom, a culpa, como sempre, é do mundo capitalista, que não me deixa exercer meu ócio em paz (com uma disponibilidade de tempo absolutamente escassa para desenvolver um pensamento crítico razoável além dos meus gritos e surtos).

Enfim, para resumir: estamos terminando o mês de outubro e Memoir of Rati segue sendo meu BL favorito do ano. E hoje eu vou provar meus pontos para que todos possam me xingar com propriedade.

Normalmente, organizo meu pensamento em: início, desenvolvimento e conclusão da obra. Mas, para Memoir of Rati, vou fazer diferente. Vou falar sobre estrutura e produção, roteiro e mensagem/moral da história.

Pense que esse é o tipo de estrutura quase impossível de se construir em 80% das obras BL, então já começamos com um ponto muito favorável.

Memoir of Rati traz 12 episódios muito bem ambientados no ano de 1915, quando o território tailandês ainda era chamado de Sião. A história retrata o país no contexto da Primeira Guerra Mundial (iniciada em 1914), dois anos antes da Tailândia entrar de fato no conflito, em 1917, ao lado dos Aliados contra a Alemanha e a Áustria.

Essa base histórica molda a atmosfera da obra de forma sutil, porém essencial para o entendimento completo da narrativa.

E essa é outra parte incrível do drama: apesar de extremamente didático e acessível, se você tiver interesse em se aprofundar na política e na cultura tailandesa da época, tudo se torna dez vezes mais rico. Mas vou discutir isso mais adiante.

Primeiro, quero falar da parte que envolve produção e figurino, e olha, a GMMTV abriu bem a mão aqui. Apesar dos cenários e locações incríveis, o que mais me chamou atenção logo de cara (além da beleza de Great Sapol, claro) foi o figurino.

Figurino de época é sempre complexo: ou é muito bem-feito e verossímil, ou é terrivelmente falso, daqueles com tecidos de loja de fantasia da 25 de Março.

Outra grande questão em relação ao figurino, e isso vale para qualquer produção, é que ele precisa funcionar como uma extensão da personagem.

“Como assim, Flah?” Calma que a tia explica.

A imagem é uma linguagem não verbal que traduz boa parte da personalidade de alguém, principalmente quando falamos em caracterização. Na história, é preciso construir essa pessoa que vai se apresentar ao público, seja através de uma primeira impressão controversa, que será desconstruída ao longo da narrativa, seja como alguém cheio de personalidade e detalhes que afirmam tipos sociais e estereótipos.

Isso vale tanto para o texto escrito quanto para produções audiovisuais.

Pois bem, essa parte em Memoir of Rati é executada de forma primorosa. O personagem que mais se comunica por meio do figurino é o próprio Thee (Great Sapol). Não apenas pela diferença entre a vestimenta tradicional de conde e os trajes sociais, mas pela forma como ele se expressa visualmente fora do ambiente de trabalho, especialmente em suas interações com Rati (Sarin).

Thee está à frente de seu tempo. Um visionário, principalmente em relação às questões sociais. Responsável pelo Ministério da Educação de Sião, ele reflete isso também em seu estilo: roupas com cortes tradicionais, mas combinadas de forma moderna, além de acessórios que compõem um perfil distinto, construindo uma aura intelectual e transgressora.

Ele vive pela liberdade. Não só do povo, mas da sua própria vida. Entende as regras, a cultura e a política. Sabe de seus deveres e obrigações, mas também que é preciso manobrar o sistema para alcançar seus objetivos de forma inteligente e duradoura.
Thee não odeia seu país, sua farda ou a roupa tradicional de conde; ele apenas quer poder usá-las ao lado do homem que ama.

Rati, por outro lado, é diferente, bem menos revolucionário, digamos assim. Foi criado sob a influência francesa da liberdade, igualdade e fraternidade; ou seja, era como se tudo em Sião fizesse pouco sentido para ele.

E esse era o meu maior medo: “Pronto, a GMM vai colocar a cultura europeia em um pedestal, servindo a maior síndrome de vira-lata da história.”

Para minha imensa alegria, foi totalmente diferente. No fundo, eu até esperava isso, já que o drama reflete o orgulho que os tailandeses têm de sua própria história; o orgulho de um povo que nunca foi colonizado, que respeita suas tradições e legados.

E é aqui que chegamos ao roteiro.

A ideia das “memórias de Rati” é justamente contar a história de um homem que vive a infância como servo siamês e depois é adotado, levado à França e educado como um aristocrata europeu.

Mas afinal, quais são as verdadeiras memórias desse homem? De onde vêm seus valores? Ele tinha tudo para odiar Sião, negar suas origens e se achar superior, mas não é isso que acontece. E por quê?

Porque o roteiro gira em torno do poder da resiliência e do conhecimento. Esse é um ponto central e muito valorizado pela história. Thee é ministro da Educação; Rati é professor e diplomata. Juntos, eles não apenas aprendem, como também instruem. Sem ódio, sem força, sem poderes mágicos, apenas com a boa e velha informação.

Essa dinâmica acontece não só entre os personagens, mas também com o público.

À medida que Rati vai lembrando e redescobrindo a cultura de Sião, nós aprendemos junto com ele. Pratos típicos, festivais, oferendas, sistema político, hábitos sociais; tudo é detalhadamente mostrado de forma quase didática.

Os elementos, ingredientes e expressões culturais compõem a narrativa sem torná-la pesada ou maçante; pelo contrário, é um convite para que o espectador se interesse mais pela cultura tailandesa.

Por fim, mas longe de ser o menos importante, vem a moral da história.

Como se tudo o que já falei não bastasse, Memoir of Rati ainda traz um contexto maior, um verdadeiro tapa na cara disfarçado. É algo complexo, especialmente para mulheres cis hétero (público-alvo das produções BL), compreenderem plenamente, já que trata diretamente das vivências da comunidade LGBTQIA+.

É fácil se encantar com a história de um amor proibido entre pessoas do mesmo gênero em 1915. Afinal, a repressão, o abuso, a violência e a invisibilidade faziam sentido em uma realidade de 110 anos atrás.

Difícil é perceber que pouquíssima coisa mudou.

Estamos em 2025 e ainda vemos Thees e Ratis lutando pelas mesmas causas, enfrentando as mesmas violências.

Talvez as memórias de Rati sirvam não apenas para ele relembrar suas raízes e sua história, mas também para refletirmos sobre a luta contínua de toda uma comunidade.

Não se esqueçam: no meio de tantos roteiros fofos, mágicos e emocionantes, existem pessoas reais que não vivem as mesmas histórias vitoriosas de vampiros, magos e CEOs.

Memoir of Rati é o tapa com luva de pelica, a mão paciente que, didaticamente, vem te explicar uma realidade que vai muito além da sua tela.


Nota final: 9,8

Comentários

  1. Obrigada pela resenha, a série foi incrível

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  2. Ler o que você escreve é sempre muito bom! Poder ler sobre esse trabalho incrível, melhor ainda. Os meninos arrasaram no último trabalho juntos, nos deixando boas memórias. Fico aqui na espera do próximo texto desse blog

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  3. Amei a série também. Uma das coisas que gostei bastante foi o ritmo mais lento, por assim dizer. O tempo que eles passaram separados, as cartas, e a paciência de um com o outro mesmo sem saber o que estava acontecendo. O Thee foi simplesmente incrível, a firmeza com que ele conduziu a própria vida, mesmo com todas as responsabilidades e dificuldades foi admirável demais.

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