Vaidade: o rei de todos os pecados
São Tomás de Aquino uma vez disse que a vaidade (ou o orgulho) é um pecado tão grande que deveria ser classificado separadamente dos outros seis. Em teoria, o problema desse pecado é que, com ele vem a vontade de se comparar a Deus, o que não só é proibido, como traz algumas consequências – Lucifer, Adão e Eva sabem bem disso –. O interessante é que essa definição de vaidade vem desde os gregos e vários mitos abordam essa temática, obviamente com os protagonistas se ferrando por causa dela, como é o caso de ícaro, medusa e narciso.
"A pessoa fica meses sem atualizar o blog e quando o faz, começa a brisar com uns papos aleatórios…”
Calma, eu tenho um objetivo legal… espera!
Esse dias eu fiquei pensando bastante sobre vaidade e a minha imagem. Contextualizando a tour para vocês: estou fazendo um tratamento de imunização (é chato, mas não é nada serio, fiquem tranquilos). Eu tenho uma alergia severa aos ácaros de poeira, várias espécies deles. O tratamento é basicamente para que meu sistema imunológico consiga lidar com eles, por tanto, esse sistema precisa estar 100% durante esse período.
Aqui sim começa o problema.
Eu também tenho uma alergia leve à outras substâncias: níquel, cobalto e bálsamo do peru. Então eu preciso evitar esses compostos para que o lance do ácaro funcione. O que ninguém me contou – quero dizer, a médica contou, óbvio – é que essas coisa estão em tudo na nossa vida.
“Ainda não estou conectando com o rolê da vaidade…”
Calma to chegando lá.
Entre todas as restrições que eu tenho que fazer – parar de tomar coca-cola e comer chocolate, por exemplo – deixar de pintar o cabelo e fazer as unhas são as piores. Tecnicamente eu achei, depois de uma pesquisa árdua, como burlar o rolê da unha e, com cuidado e paciência para checar os rótulos, descobri que as substâncias estão ligadas as cores de esmalte, então tem alguns tons que eu preciso abolir, mas outros que eu posso usar numa boa.
Mas o cabelo…
Pintar o cabelo exige uma série de procedimentos e produtos que vão além da tintura e, consequentemente, fogem do meu controle. Por isso, depois de cinco anos, eu voltei para o tom original dele, já que eu não vou poder retocar o ruivo por um tempo – ou para sempre.
Pode parecer banal, concordo. A primeira coisa que eu pensei quando eu comecei a chorar logo depois da consulta foi: "pelo amor de Deus, Flavia, é só a cor do seu cabelo! As pessoas têm milhares de problemas muito piores que esse." Eu me achei mesquinha. Achei que meu choro não era legítimo e que tudo era um surto mimado de uma mulher com uma crise adolescente.
Sabe, eu sou uma pessoa bem pragmática 90% do tempo, então eu queria muito entender de que lugar da minha vida aquilo tudo saiu. E é aqui que entra o peso da vaidade na minha vida.
Existe uma grande diferença entre: orgulho (a soberba) e orgulho (o amor próprio). Amor próprio é um dos maiores bens que a gente constrói na vida, é algo fundamental para seguir-mos a diante com o mínimo de saúde mental. E sim, isso é algo que a gente contrói aos poucos, aprendendo ao longo da vida. Honestamente, eu demorei muito para começar a erguer o meu amor. Foram alguns anos de questionamento e falta de identificação com o mundo que me fizeram, finalmente, colocar o primeiro tijolo nesse muro da autoconfiança. Durante esse período existiram vários momentos importantes, mas tem um em específico que moldou 70% de quem eu sou hoje. Foi o chute no balde mais bonito da minha vida e eu me orgulho muito disso.
Refletindo dentro do carro estacionado na rua do consultório da alergista, me dei conta de que um dos símbolos que guiou esse momento foi mudar a cor do meu cabelo.
Eu consigo entender essa comparação da vaidade com o poder de Deus, porque eu me reinventei a primeira vez que fui no salão e consegui uma força gigantesca a partir daquele momento. Eu olhava para mim mesma e tinha a total certeza que poderia fazer qualquer coisa. Depois disso, minhas decisões vieram em efeito cascata e eu sabia que poderia me arriscar cada vez mais, porque eu conseguiria fazer dar certo.
Aquela persona com o cabelo, que começou no tom marsala e evoluiu para o ruivo, largou tudo para estudar arte e se formou em design, viajou sozinha para a Coreia e voltou cheia de amigos, ela (uma pessoa super tímida, apesar de não parecer) começo a fazer video para internet. O meu eu de 12 anos atrás jamais pensaria na possibilidade de fazer essas coisas.
Acho que, de certa forma, meu choro foi muito mais uma despedida para essa persona incrível que eu construi.
Nietzsche escreveu uma vez que "a vaidade é o medo de ser original: é, portanto, falta de orgulho, mas não necessariamente falta de originalidade”. Então eu posso pensar que esse poder que eu ganhei mudando o cabelo foi o meu orgulho em me encontrar e seguir a minha originalidade, mas o meu choro é o medo de dar esse passo de novo e encontrar um outro eu.
Hoje, quando eu sai do salão com a cor natural do meu cabelo, soube que esse processo não significou um retorno à Flávia presa, fraca e confusa de 5 anos atrás. Esse momento é uma possibilidade incrível para construir uma nova fase da minha vida, com novos desafios e metas, transformando a cor original do meu cabelo num visual totalmente novo, uma pessoa nova.
flh
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