Hackeada

O abril de 22
    

    "Verbo transitivo direto. Burlar a segurança de um sistema computacional, buscando acessar ilegalmente, sem a permissão do dono, um computador ou sistema computacional e informático."
    

    Talvez esse não seja um texto tão interessante para se começar um blog. Ninguém quer tornar público uma história pessoal baseada no rich people problem de uma mulher que teve seu Iphone furtado e comprou outro no dia seguinte. Mas, apesar de parecer mesquinha e vazia, essa experiência me fez pensar bastante sobre como eu vejo minha vida e como interagimos com esse mundo digital. Uma discussão cabeça demais para um post de Instagram, mas não tão profunda para um blog cult de sucesso.

    Meu terrível abril de 22 começou no fim de março com o episódio do furto no festival de música. Meu Deus, eu esperava tantas coisas desse momento. Com um ingresso VIP que eu ganhei de presente de uma amiga, a Cinderela aqui conseguiu dar um close no baile e tentar fazer desse dia um acontecimento de milhões... ou não.


    Fora a tempestade, a lama, o perigo de raio e a impossibilidade de assistir mais de um show de forma minimamente confortável, algo pior aconteceu: meu celular foi furtado. Bom, o meu e de mais um batalhão de fãs que estavam assistindo aos shows. Foi tanta gente que o noticiário da Record quis fazer uma matéria sobre o “arrastão” que rolou no evento e, sabe-se Deus como, a equipe deles conseguiu o meu contato. Da possibilidade de um stories finíssimo, comigo belíssima ao lado da Pabllo, terminei aparecendo com a cara da derrota no noticiário da manhã, chorando as pitangas.


    Olhando assim parece uma situação engraçada, a história do almoço de domingo. "Ninguém morre por causa de um celular…” Será?


    (Pausa dramática para a introdução do papo cabeça)


    Quando a gente é furtado a primeira coisa que vem na mente é o valor do bem. Os mais jovens, normalmente, sentem culpa e medo da bronca dos pais, sabem que vão ouvir um monte quando chegar em casa e nem sempre terão um novo aparelho imediatamente. Para a galera mais velha, que trabalha e banca parte ou todo seu sustento, o que vem na cabeça são as horas de trabalho e o planejamento financeiro que será massacrado com as parcelas de um aparelho novo. A gente xinga e amaldiçoa o bandido, chora e tenta se apertar pra comprar outro. Minha preocupação se concentrou nisso e em avisar minha mãe acaso eles entrasse no meu whatsapp. Mas hoje, 2022, ter seu celular tirado de você pode significar muito mais.
 
    Descobri o quanto minha vida estava entrelaçada ao mundo digital de uma maneira traumatizante, com eventos que foram piorando a cada dia. É muito curioso como a gente não ocupa o espaço de vítima em casos de furto. Na verdade, somos trouxas. “Sua bolsa não fechava direito”; “você estava desatenta”; “mas indo nesse lugar era óbvio que isso ia acontecer”.


    Voltar pra casa foi o primeiro caos. Eu moro a duas horas de distância do local do evento e o GPS era meu celular. Pedir um uber ou taxi também é pelo celular. Pesquisar qual transporte público eu uso pra voltar pra casa é por um app ou o google no seu celular. Para ir e vir, você usa o celular.


    O segundo caos veio quando eu consegui chegar em casa e acessar meu computador, ou tentar. A senha da minha conta da Apple não era aceita, então eu conclui que eles entraram no meu celular bloqueado. No mesmo momento veio o iCloud na minha cabeça. Minha vida estava na nuvem: documentos, jobs, contratos, fotos. Minha vida estava no celular.

 

    O próximo caos veio pela manhã com uma cobrança de corrida no uber de 400,00 reias. Eles foram pra marte com o meu celular. 


    Ainda que desesperada e correndo para tirar todos os meus documentos mais importantes da nuvem eu conseguia pensar no próximo passo que incluía mudar todas as minhas senhas. E então veio o maior baque: na maioria dos apps, quando você tenta logar em outro dispositivo, a confirmação vem via SMS, mensagem no WhatsApp ou ligação. Você só prova que você é você como o seu celular. Essa foi uma das crises existenciais mais severas dessa tour toda. Tudo é controlado por máquinas e softwares e estes só reconhecem outra máquina ou software.

 

    Naquele momento o humano me fez falta. O falar com alguém que soubesse o que fazer me fez falta, o calor em ser de fato ouvida. Tutoriais no YouTube, respostas em fóruns, email para as centrais de atendimento ao cliente, não substituem alguém que conversa com você, que te tranquiliza e saiba de fato o que aconteceu e como resolver.


    Os criminosos ainda conseguiram invadir o app do meu banco, fizeram empréstimos, recargas de celular, pix. Eles com a posse do meu aparelho conseguiram confirmar que era eu, enquanto eu mesma demorei 15 dias para provar a minha identidade pro banco e reverter as transações. Você é o seu celular, e isso aumenta o nosso medo.


    Eu me senti vigiada. Pensei: “pra eles conseguirem acessar meu celular precisaria da senha. Tentativa e erro funciona ou eles ficaram me observando colocar a senha?”; “quem mais me observa colocar a senha no celular? Pessoal no trabalho, na faculdade, transporte público?”; “será que eles fizeram uma cópia de todos os meus documentos do iCloud? Todas as datas e informações possíveis minhas estavam lá”.


     “Eles podem prever minhas próximas senhas com essas informações?”


    Essa ideia me corroeu. Mudei todas as senhas para palavras aleatórias, mas ainda sim relativamente fáceis de lembrar.


    Apesar da paranoia, aos pouco e com muita terapia, eu consegui me recuperar bem e resolvi os problemas que foram causados pelos bandidos. A sensação de medo e invasão estava diminuindo, até que outro caos aconteceu.


Continua…


flh

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