Chá de Camomila
Como se constrói um hábito?
Meu plano era trocar o café com leite por chá de camomila sem açúcar.
Foi depois da colação de grau em janeiro que eu decidi colocar meu plano de criar hábitos em prática. Minha ideia principal era montar uma rotina ideal que tornasse todos os meus objetivos possíveis de serem realizados até o meio do ano. Pulei de cabeça na convicção de que eu conseguiria trabalhar, ir na academia, estudar coreano, produzir conteúdo e ainda ter uma vida social incrível com as minhas amigas se conseguisse seguir a rotina.
Eu tinha certeza que a culpa da minha desorganização era a falta do tempo que a faculdade roubava e que, agora formada, eu conseguiria ter aquela vida tranquila da amiga da protagonista de drama, sabe? Aquela personagem que tem tudo no lugar e por isso só aparece pra dar apoio e conselho pra garota principal que corre atrás do boy?
Bom, pra seguir essa rotina eu comecei a analisar meus compromissos semanalmente. Anotava os eventos fixos (trabalho e projetos) e eventos variáveis (academia e o estudo de coreano, por exemplo) e colocava organizado no calendário. Todo domingo eu separava meu tempo livre e encaixava os meus planos.
Por algum motivo, eu tive total convicção que eu conseguiria manter uma rotina diária de exercícios. Cara, eu nunca fiz isso na vida, mas algo me dizia que era uma questão de hábito: “depois de 3 semanas eu vou ter prazer em fazer exercícios e vou até sentir falta de não ir à academia”, pensava.
Nunca em cristo!
Obviamente eu jamais consegui levar isso pra frente. A preguiça tomou conta do meu ser e, dos cinco dias planejados, acabava indo uns dois dias por semana na academia, no máximo.
Com a produção de conteúdo e o estudo de coreano foi a mesma coisa. Alguma voz mística me disse que eu era mais produtiva pela manhã, então eu me forcei a acordar cedo todos os dias, tomar café em exata 1 hora e sentar pra estudar. Isso também nunca foi pra frente e eu estou pagando um curso que ainda nem comecei direito.
Mas calma, porque obviamente tem uma moral da história. Não vou fazer um blog pra vocês lerem meus lamentos vazios.
Comecei a me perguntar o porquê disso: por que criar um hábito não funciona comigo? Eu vivia frustrada, irritada e decepcionada comigo mesma. Pensava que tinha nascido com o menor índice de força de vontade já visto em um ser humano e que, de certa forma, eu não ia conseguir as coisas por preguiça.
Sempre achei que era preguiça.
Mas ideias surgem e questionamentos acontecem. De repente, todo o estudo que eu fiz pra construir meu TCC veio na minha cabeça e me fez pensar: será que o problema é realmente preguiça?
A gente é condicionado a ser produtivo e a apresentar bons resultados. Byung-chul Han diz que a sociedade do cansaço, do Home office e dos chefes de si mesmos nos transforma nos piores patrões possíveis e nas pessoas que mais vão nos cobrar e nos julgar. A gente acaba por não viver o tempo presente pensando no que gostaria de ser daqui x anos (O TCC me dando, literalmente, um chute na cara).
Eu até consegui compreender essa teoria aplicada ao meu trabalho e à produção de conteúdo (que não deixa de ser trabalho também), mas eu não conseguia entender como isso poderia explicar o meu descaso em relação aos meus objetivos pessoais, por exemplo, o estudo de coreano. Só depois de muita terapia e noites na bad vibe, que eu compreendi que o problema não era o resultado em si, mas o método que eu criei pra alcança-lo.
Eu conclui que cada semana é uma semana diferente. Cada dia é um dia diferente. Somos pessoas diferentes todos os dias.
Eu posso acordar 6 da manhã e fazer uma aula de spinning no maior pique do universo, mas eu também posso acordar odiando tudo e todos, querendo apenas existir. É impossível ter essa energia todos os dias da sua vida, assim como não é saudável acordar péssimo sempre.
Criar um hábito não é, necessariamente, seguir uma rotina a risca, mas sim desenvolver a habilidade em lidar com as adversidades que faz cada dia único. Quase todo dia algo novo acontece e o meu jogo de cintura pra encaixar isso nos meus planos programados pra aquele dia é o que define meu hábito.
Existe uma razão pra protagonista ser a protagonista, assim como existe uma razão pra vida perfeita da personagem secundária só aparecer nos momentos de crise: a vida dela não avança, não tem história.
Conclusão: criar um hábito é entender que eu posso beber café com leite e chá de camomila no mesmo dia.
flh
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